Quando um filho morre

Como contemplar a morte de um filho conforme a vontade de Deus?

«Para os que creem em Vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma: e, desfeita a morada deste exílio terrestre, adquirimos no céu uma habitação eterna.» (Prefácio dos Defuntos I: Missale Romanum)

A nossa vida material cotidiana pode nos levar a considerar como distante a vida espiritual e eterna. Em certas ocasiões, o choque de realidade é forte, e acabamos por contemplar algumas grandes verdades da criação de Deus: a vida, a morte, a eternidade e a salvação. Consideremos a grande tristeza vivida pelos pais que enterram seus filhos. A esperança de vê-los crescer é substituída pelo vazio de um futuro que não se cumpriu, por planos abandonados no meio do caminho. Apesar do sofrimento, em tudo devemos dar graças a Deus, pois tudo contribui para que seja feita a Sua vontade.

Enquanto, diante da morte, qualquer imaginação se revela impotente, a Igreja, ensinada pela revelação divina, afirma que o homem foi criado por Deus para um fim feliz, para além dos limites da miséria terrena. A fé cristã ensina que a própria morte corporal, de que o homem seria isento se não tivesse pecado (14) – acabará por ser vencida, quando o homem for pelo omnipotente e misericordioso Salvador restituído à salvação que por sua culpa perdera. (Gaudium et Spes, n. 18)

“O salário do pecado é a morte”. (Rm 6, 23) Toda morte, corrupção e sofrimento entrou no mundo pelo pecado, não somente os nossos pecados pessoais, mas também pelos pecados daqueles que nos antecederam. Mas devemos ter a certeza de que “Jesus, Filho de Deus, também sofreu a morte, própria da condição humana. Mas apesar da repugnância que sentiu perante ela, assumiu-a num acto de submissão total e livre à vontade do Pai. A obediência de Jesus transformou em bênção a maldição da morte.” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1009) Enfim, a morte é vida, e vida eterna.

Diante deste mistério da Salvação, a Madre Angélica faz uma bela reflexão, que não cabe somente a este momento de sofrimento, mas a tantos outros que no fundo de nosso coração hesitamos em deixar que “seja feita a Sua vontade”:

“Meu Senhor, meu bebê está morto! Por que, meu Senhor, eu ouso perguntar, por que? Ele não ouvirá o sussurrar do vento, ou ver a beleza na face de seus pais. Ele não verá a beleza de Sua criação, ou a chama sol ao nascer. Por que, meu Senhor?”

“Por que, minha criança, você pergunta o porquê? Bem, eu te direi o porquê. Veja, a sua criança vive. Ao invés do vento, ele ouvirá o som dos anjos cantando diante o Meu trono. Ao invés da beleza efêmera, ele verá a eterna Beleza; ele verá a Minha Face. Ele foi criado e viveu por pouco tempo, para que a imagem de seus pais, impressa em sua própria face, possa estar diante de Mim como intercessor pessoal eles. Ele sabe os segredos do Céu, desconhecidos dos homens na Terra. Ele ri com uma alegria especial, que somente os inocentes possuem. Meus caminhos não são os caminhos do homem. Eu o criei para o Meu Reino, e cada criatura preenche um local no Reino que não cabe a nenhum outro. Ele foi criado para Minha Alegria e os méritos de seus pais. Ele nunca conheceu a dor ou o pecado. Ele nuca sentiu fome ou dor. Eu soprei uma alma sobre uma semente, fi-la crescer e a chamei para Mim.”

“Humilho-me perante Vós, meu Senhor, por ter questionado a Vossa sabedoria, bondade e amor. Eu falo como um tolo, peço-Vos perdão. Eu reconheço Vossa soberania sobre a vida e a morte. Agradeço-Vos pela vida que começou tão brevemente a desfrutar a Eternidade.”

-Madre Maria Angélica da Anunciação, PCPA (Fonte: EWTN)

Abençoe-nos Deus diante das adversidades, e que possamos abraçar todas as contrariedades desta vida com a Sua caridade e paciência.

Aquela que mostra O Caminho

Na oração, o Espírito Santo une-nos à pessoa do Filho Único, na sua humanidade glorificada. É por ela e nela que a nossa oração filial comunga, na Igreja, com a Mãe de Jesus (21).

Desde o consentimento prestado na fé à Anunciação e mantido sem hesitação ao pé da cruz, a maternidade de Maria estende-se aos irmãos e irmãs do seu Filho ainda peregrinos e que caminham entre perigos e angústias (22). Jesus, o único mediador, é o caminho da nossa oração; Maria, sua Mãe e nossa Mãe, é pura transparência dele: Ela «mostra o caminho» («Hodêghêtria»), é «o sinal» do caminho, segundo a iconografia tradicional no Oriente e no Ocidente.

Foi a partir desta singular cooperação de Maria com a acção do Espírito Santo que as Igrejas cultivaram a oração à santa Mãe de Deus, centrando-a na pessoa de Cristo manifestada nos seus mistérios. Nos inúmeros hinos e antífonas em que esta oração se exprime, alternam habitualmente dois movimentos: um «magnifica» o Senhor pelas «maravilhas» que fez pela sua humilde serva e, através d’Ela, por todos os seres humanos (23); o outro confia à Mãe de Jesus as súplicas e louvores dos filhos de Deus, pois Ela agora conhece a humanidade que n’Ela foi desposada pelo Filho de Deus.

21. Cf. Act 1, 14.
22. Cf. II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 62: AAS 57 (1965) 63.
23. Cf. Lc 1, 46-55.

Texto: Catecismo da Igreja Católica, §§ 2673 a 2675.
Imagem: The Virgin Hodegetria, por Lambardos Emmanuel.

A transmissão da Revelação divina

Como a Revelação de Deus chegou até nós? Eis o que nos ensina o Catecismo da Igreja Católica.

74. Deus «quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2, 4), quer dizer, de Cristo Jesus (37). Por isso, é preciso que Cristo seja anunciado a todos os povos e a todos os homens, e que, assim a Revelação chegue aos confins do mundo:

Deus dispôs amorosamente que permanecesse íntegro e fosse transmitido a todas as gerações tudo quanto tinha revelado para salvação de todos os povos (38).

I. A Tradição apostólica

75. «Cristo Senhor, em quem toda a revelação do Deus altíssimo se consuma, tendo cumprido e promulgado pessoalmente o Evangelho antes prometido pelos profetas, mandou aos Apóstolos que o pregassem a todos, como fonte de toda a verdade salutar e de toda a disciplina de costumes, comunicando-lhes assim os dons divinos» (39).

A PREGAÇÃO APOSTÓLICA …

76. A transmissão do Evangelho, segundo a ordem do Senhor, fez-se de duas maneiras:

– oralmente, «pelos Apóstolos, que, na sua pregação oral, exemplos e instituições, transmitiram aquilo que tinham recebido dos lábios, trato e obras de Cristo, e o que tinham aprendido por inspiração do Espírito Santo»;

– por escrito, «por aqueles apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, escreveram a mensagem da salvação» (40). Continue Lendo “A transmissão da Revelação divina”

A Santíssima Trindade

Ao pensarmos na Santíssima Trindade, temos que estar em guarda contra um erro: não pensar em Deus Pai como aquele que “vem primeiro”, em Deus Filho como aquele que vem depois, e em Deus Espírito Santo como aquele que vem ainda um pouco mais tarde. Os três são igualmente eternos porque possuem a mesma natureza divina; o Verbo de Deus e o Amor de Deus são tão sem tempo como a Natureza de Deus. E Deus Filho e Deus Espírito Santo não estão subordinados ao Pai de modo algum; nenhuma das Pessoas é mais poderosa, mais sábia, maior que as demais. As três têm igual perfeição infinita, igualmente baseada na única natureza divina que as três possuem.

Toda a economia divina é obra comum das três Pessoas divinas, pois da mesma fora que a Trindade não tem senão uma única e mesma natureza, assim também não tem senão uma única e mesma operação. (CIC § 258)

Não obstante, atribuímos a cada Pessoa divina certas “obras”, certas atividades que manifestam ou refletem melhor as propriedades desta ou daquela Pessoa divina. Por exemplo, atribuímos a Deus Pai a obra da Criação, já que pensamos nEle como o “gerador”, o instigador, o motor de todas as coisas, a sede do infinito poder que Deus possui.

Do mesmo modo, como Deus Filho é o Conhecimento ou a Sabedoria do Pai, atribuímos-lhe as obras de sabedoria; foi Ele que veio à terra para nos dar a conhecer a verdade e transpor o abismo entre Deus e o homem.

Finalmente, sendo o Espírito Santo o amor infinito, apropriamos-lhe as obras de amor, especialmente a santificação das almas, que resulta da habitação do Amor de Deus em nossa alma.

Deus Pai é o Criador, Deus Filho o Redentor, Deus Espírito Santo é o Santificador. E, não obstante, o que Um faz, Todos o fazem; onde Um está, estão os Três.

Este é o mistério da Santíssima Trindade: a infinita variedade na unidade absoluta, cuja beleza nos inundará no céu.

Texto: A Fé explicada, de Leo J. Trese.

“Se Deus quiser!”

Na oração do Pai-Nosso dizemos “seja feita a Vossa vontade”, mas será que sempre nos dispomos a viver essas palavras?

Às vezes podemos nos pegar falando uma grande besteira, capaz de expressar a nossa total mesquinhez e egoísmo: “Se Deus quiser eu (…)”; “Deus queira que eu (…)”.

Nunca iremos dobrar a vontade de nosso Pai. Em nosso mundinho, imaginamos que tudo que nos brota da vontade e nos desejos será bom para nós; entretanto, não enxergamos a graça que é escutarmos e cumprirmos a vontade do Pai. Nada que seja material (meras criaturas de Deus) conseguirá suprir nossa ânsia pelas coisas celestes. Para sermos realmente realizados, só nos basta submetermos nossa vontade à de Deus.

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Cristo desceu à mansão dos mortos

632. As frequentes afirmações do Novo Testamento, segundo as quais Jesus «ressuscitou de entre os mortos» (1 Cor 15, 20) (528), pressupõem que, anteriormente à ressurreição, Ele tenha estado na mansão dos mortos este o sentido primeiro dado pela pregação apostólica à descida de Jesus à mansão dos mortos: Jesus conheceu a morte, como todos os homens, e foi ter com eles à morada dos mortos. Porém, desceu lá como salvador proclamando a Boa-Nova aos espíritos que ali estavam prisioneiros.

633. A morada dos mortos, a que Cristo morto desceu, é chamada pela Escritura os infernos, Sheol ou Hades, porque aqueles que aí se encontravam estavam privados da visão de Deus. Tal era o caso de todos os mortos, maus ou justos, enquanto esperavam o Redentor, o que não quer dizer que a sua sorte fosse idêntica, como Jesus mostra na parábola do pobre Lázaro, recebido no «seio de Abraão». «Foram precisamente essas almas santas, que esperavam o seu libertador no seio de Abraão, que Jesus Cristo libertou quando desceu à mansão dos mortos». Jesus não desceu à mansão dos mortos para de lá libertar os condenados, nem para abolir o inferno da condenação, mas para libertar os justos que O tinham precedido.

634. «A Boa-Nova foi igualmente anunciada aos mortos…» (1 Pe 4, 6). A descida à mansão dos mortos é o cumprimento, até à plenitude, do anúncio evangélico da salvação. É a última fase da missão messiânica de Jesus, fase condensada no tempo, mas imensamente vasta no seu significado real de extensão da obra redentora a todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares, porque todos aqueles que se salvaram se tornaram participantes da redenção.

635. Cristo, portanto, desceu aos abismos da morte, para que «os mortos ouvissem a voz do Filho do Homem e os que a ouvissem, vivessem» (Jo 5, 25). Jesus, «o Príncipe da Vida», «pela sua morte, reduziu à impotência aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo, e libertou quantos, por meio da morte, se encontravam sujeitos à servidão durante a vida inteira» (Heb 2, 14-15). Desde agora, Cristo ressuscitado «detém as chaves da morte e do Hades» (Ap 1, 18) e «ao nome de Jesus todos se ajoelhem, no céu, na terra e nos abismos» (Fl 2, 10).

«Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o rei dorme. A terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam há séculos […]. Vai à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Quer visitar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte. Vai libertar Adão do cativeiro da morte. Ele que é ao mesmo tempo seu Deus e seu filho […] “Eu sou o teu Deus, que por ti me fiz teu filho […] Desperta tu que dormes, porque Eu não te criei para que permaneças cativo no reino dos mortos: levanta-te de entre os mortos; Eu sou a vida dos mortos”».

Trecho da Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 632 a 635.
Leia o Catecismo completo através do site do Vaticano.

Imagem:
Ícone da descida de Cristo à mansão dos mortos, no estilo siro-maronita.
Retirado do livro The Maronite Icons: Modern Sacred Art.