O jejum das Quatro Têmporas

Foi o Papa Calisto que instituiu o jejum das têmporas, que deve ser observado quatro vezes por ano, uma em cada estação, por várias razões.

Primeira delas, a diversidade das épocas, pois a primavera é quente e úmida, o verão quente e seco, o outono frio e seco, o inverno frio e úmido. Jejuamos na primavera para temperar em nós o humor nocivo que é a luxúria; no verão para castigar o calor prejudicial que é a avareza; no outono para temperar a secura do orgulho; no inverno para atenuar o frio da infidelidade e da malícia.

Segunda razão, jejuamos quatro vezes por ano, a primeira delas em março, na primeira semana da Quaresma, para mitigar em nós os vícios, já que não podemos destruí-los inteiramente, ou melhor, para germinar em nós as virtudes. O segundo jejum ocorre no verão, na semana de Pentecostes, quando veio o Espírito Santo para o qual devemos nos preparar fervorosamente. O terceiro jejum é observado em setembro, antes da festa de São Miguel, quando se faz a colheita das frutas e devemos então entregar a Deus os frutos das boas obras. O quarto jejum vem em dezembro, quando as ervas morrem e devemos morrer para o mundo.

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O Santíssimo Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo

Bula Transiturus de hoc mundo, do Papa Urbano IV, de 11 de agosto de 1264.

A Eucaristia como memorial de Cristo

Na instituição deste sacramento, ele disse aos Apóstolos: “Fazei isto em minha memória” (Lc 22,19), para que este excelso e venerável sacramento fosse para nós peculiar e insigne memorial do seu extraordinário amor com o qual nos amou. Admirável memorial, digo… , no qual se renovam os sinais e as maravilhas se apresentam transformadas, no qual se encontra todo deleite…, no qual conseguimos sim uma ajuda de vida e salvação. Este é o memorial … salvífico, no qual reconsideramos a grata memória da nossa redenção, no qual somo afastados do mal e revigorados no bem, e progredimos no crescimento das virtudes e das graças, no qual verdadeiramente progredimos pela presença corpórea do próprio Salvador.

De fato, as outras coisas de que fazemos memória, nós a abraçamos com o espírito e com a mente, mas não conseguimos com isto a sua real presença. Ao invés, nesta sacramental comemoração do Cristo, está presente conosco Jesus Cristo, ainda que sob outra forma, nas em <sua> própria substância. Pois quando estava para subir aos céus, disse aos Apóstolos e aos seguidores deles: “Eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28,20), confortando os mesmos com a benigna promessa de permanecer e estar com eles também em presença corpórea.

A Eucaristia como alimento da alma

… Superando toda plenitude de generosidade, excedendo toda medida de amor, ofereceu a si mesmo em alimento. Ó singular e maravilhosa generosidade, onde o doador vem como dom, e o que é doado é totalmente idêntico ao doador! …

Ele, portanto, se deu a si mesmo em alimento a nós, para que o homem que estava em ruínas por causa da morte, pelo alimento fosse reerguido para a vida… O degustar feriu e o degustar curou. Contempla como, de onde nasceu a ferida, saiu o remédio e, de onde entrou a morte, saiu a vida. Daquele degustar, de fato, foi dito: “No dia em que comeres, de morte morrerás” (Gn 2,17); deste, ao contrário, se lê: “Se alguém tiver comido deste pão, viverá eternamente” (Jo 6,52). …

Foi também preciosa liberalidade e conveniente operação que o Verbo eterno de Deus, que é alimento e refeição da criatura racional feito carne, se oferecesse generosamente em banquete à carne e ao corpo da criatura racional, isto é, ao ser humano. … Este pão é comido, mas na verdade não é consumido; é comido, mas não mudado, porque não é de modo algum transformado naquele que come, mas, se é recebido de modo digno, aquele que o recebe é a ele amoldado.

Texto: Bula Transiturus de hoc mundo, do Papa Urbano IV, de 11 de agosto de 1264; transcrito dos nn. 846 e 847 do Compêndio dos Símbolos, definições e declarações de fé e moral, o “Denzinger”, da 3ª edição das editoras Paulinas e Loyola.
Imagens: Adam and Eve, de Jan Gossaert; e Christus mit der Eucharistie, de Juan de Juanes.

O discernimento

Como é possível saber se algo vem do Espírito Santo ou se deriva do espírito do mundo e do espírito maligno? A única forma é o discernimento. Este não requer apenas uma boa capacidade de raciocinar e sentido comum, é também um dom que é preciso pedir. Se o pedirmos com confiança ao Espírito Santo e, ao mesmo tempo, nos esforçarmos por cultivá-lo com a oração, a reflexão, a leitura e o bom conselho, poderemos certamente crescer nesta capacidade espiritual.

O discernimento não é necessário apenas em momentos extraordinários, quando temos de resolver problemas graves ou quando se deve tomar uma decisão crucial; mas é um instrumento de luta, para seguir melhor o Senhor. É-nos sempre útil, para sermos capazes de reconhecer os tempos de Deus e a sua graça, para não desperdiçarmos as inspirações do Senhor, para não ignorarmos o seu convite a crescer. Frequentemente isto decide-se nas coisas pequenas, no que parece irrelevante, porque a magnanimidade mostra-se nas coisas simples e diárias*. Trata-se de não colocar limites rumo ao máximo, ao melhor e ao mais belo, mas ao mesmo tempo concentrar-se no pequeno, nos compromissos de hoje. Por isso, peço a todos os cristãos que não deixem de fazer cada dia, em diálogo com o Senhor que nos ama, um sincero exame de consciência. Ao mesmo tempo, o discernimento leva-nos a reconhecer os meios concretos que o Senhor predispõe, no seu misterioso plano de amor, para não ficarmos apenas pelas boas intenções.
É verdade que o discernimento espiritual não exclui as contribuições de sabedorias humanas, existenciais, psicológicas, sociológicas ou morais; mas transcende-as. Não bastam sequer as normas sábias da Igreja. Lembremo-nos sempre de que o discernimento é uma graça. Embora inclua a razão e a prudência, supera-as, porque trata-se de entrever o mistério daquele projeto, único e irrepetível, que Deus tem para cada um e que se realiza no meio dos mais variados contextos e limites. Não está em jogo apenas um bem-estar temporal, nem a satisfação de realizar algo de útil, nem mesmo o desejo de ter a consciência tranquila. Está em jogo o sentido da minha vida diante do Pai que me conhece e ama, aquele sentido verdadeiro para o qual posso orientar a minha existência e que ninguém conhece melhor do que Ele. Em suma, o discernimento leva à própria fonte da vida que não morre, isto é, conhecer o Pai, o único Deus verdadeiro, e a quem Ele enviou, Jesus Cristo (cf. Jo17, 3). Não requer capacidades especiais nem está reservado aos mais inteligentes e instruídos; o Pai compraz-Se em manifestar-Se aos humildes (cf. Mt 11, 25).

* No túmulo de Santo Inácio de Loyola, lê-se este sábio epitáfio: «Non coerceri a maximo, contineri tamen a minimo divinum est – é divino não se assustar com as coisas maiores e, simultaneamente, cuidar das menores».

Texto: Exortação Apostólica Gaudete et exsultate do Papa Francisco, sobre a chamada à santidade no mundo atual, §§ 166, 169 e 170.
Confira o documento na íntegra.

Homilia do Papa São João Paulo II na Vigília Pascal

«A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se pedra angular» (Sl 117,22). À luz da Ressurreição de Cristo, como se manifesta em toda a sua plenitude esta verdade que canta o Salmista! Condenado a uma morte ultrajante, o Filho do homem, crucificado e ressuscitado, tornou-Se pedra angular para a vida da Igreja e de cada cristão.

«Isto se fez por obra do Senhor, e é um prodígio aos nossos olhos» (Sl 117,23). Foi o que aconteceu nesta noite santa. Puderam-no comprovar as mulheres, que «no primeiro dia da semana, logo de manhã, ainda escuro» (Jo 20,1), foram ao sepulcro para ungir os restos mortais do Senhor, mas encontraram vazio o túmulo. Ouviram a voz do anjo: «Não tenhais medo; sei que buscais a Jesus crucificado. Não está aqui, pois ressuscitou» (cf. Mt 28,5).

Cumpriram-se, assim, as palavras proféticas do Salmista: «A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se pedra angular». Esta é a nossa fé. Esta é a fé da Igreja, que nos gloriamos de professar no limiar do terceiro milênio, porque a Páscoa de Cristo é a esperança do mundo, ontem, hoje e por todos os séculos.

Amém!

Trecho da homilia do Papa São João Paulo II na Vigília Pascal, em 3 de abril de 1999.
Leia a homilia na íntegra.

Lealdade à autoridade eclesiástica

Santo Inácio foi bispo de Antioquia, atual Síria, e morreu pouco tempo depois do ano 100. Foi ordenado bispo por São Pedro. Tendo sido sequestrado em sua diocese por soldados do Império, foi levado acorrentado até Roma, onde sofreu seu martírio pelas feras. Durante a viagem, escreveu cartas a várias comunidades cristãs. Abaixo, um trecho de sua carta aos cristãos de Esmirna.

Sigam todos ao bispo, como Jesus Cristo ao Pai; sigam ao presbitério como aos apóstolos. Acatem os diáconos, como à lei de Deus. Ninguém faça sem o bispo coisa alguma que diga respeito à Igreja. Por legítima seja tida tão-somente a Eucaristia, feita sob a presidência do bispo ou por delegado seu. Onde quer que se apresente o bispo, ali também esteja a comunidade, assim como a presença de Cristo Jesus também nos assegura a presença da Igreja católica. Sem o bispo, não é permitido nem batizar nem celebrar o ágape. Tudo porém o que ele aprovar será também agradável a Deus, para que tudo quanto se fizer seja seguro e legítimo.

No mais, é razoável voltarmos ao bom-senso, e convertermo-nos a Deus, enquanto ainda for tempo. Bom é tomarmos conhecimento de Deus e do bispo. Quem honra o bispo será também honrado por Deus; quem faz algo às ocultas do bispo presta culto ao diabo. Que tudo redunde em graça a vosso favor, pois bem o mereceis. Vós me confortastes de toda maneira e Jesus Cristo a vós. As provas de carinho me seguiram, presente estivesse eu ou ausente. Que Deus seja a paga, por cujo amor tudo suportais, pelo que também haveis de chegar a possuí-l’O.

Fonte: Santo Inácio de Antioquia, Carta aos esmirnenses, §§ 8 e 9, circa 100 d.C.

A Santíssima Trindade

Ao pensarmos na Santíssima Trindade, temos que estar em guarda contra um erro: não pensar em Deus Pai como aquele que “vem primeiro”, em Deus Filho como aquele que vem depois, e em Deus Espírito Santo como aquele que vem ainda um pouco mais tarde. Os três são igualmente eternos porque possuem a mesma natureza divina; o Verbo de Deus e o Amor de Deus são tão sem tempo como a Natureza de Deus. E Deus Filho e Deus Espírito Santo não estão subordinados ao Pai de modo algum; nenhuma das Pessoas é mais poderosa, mais sábia, maior que as demais. As três têm igual perfeição infinita, igualmente baseada na única natureza divina que as três possuem.

Toda a economia divina é obra comum das três Pessoas divinas, pois da mesma fora que a Trindade não tem senão uma única e mesma natureza, assim também não tem senão uma única e mesma operação. (CIC § 258)

Não obstante, atribuímos a cada Pessoa divina certas “obras”, certas atividades que manifestam ou refletem melhor as propriedades desta ou daquela Pessoa divina. Por exemplo, atribuímos a Deus Pai a obra da Criação, já que pensamos nEle como o “gerador”, o instigador, o motor de todas as coisas, a sede do infinito poder que Deus possui.

Do mesmo modo, como Deus Filho é o Conhecimento ou a Sabedoria do Pai, atribuímos-lhe as obras de sabedoria; foi Ele que veio à terra para nos dar a conhecer a verdade e transpor o abismo entre Deus e o homem.

Finalmente, sendo o Espírito Santo o amor infinito, apropriamos-lhe as obras de amor, especialmente a santificação das almas, que resulta da habitação do Amor de Deus em nossa alma.

Deus Pai é o Criador, Deus Filho o Redentor, Deus Espírito Santo é o Santificador. E, não obstante, o que Um faz, Todos o fazem; onde Um está, estão os Três.

Este é o mistério da Santíssima Trindade: a infinita variedade na unidade absoluta, cuja beleza nos inundará no céu.

Texto: A Fé explicada, de Leo J. Trese.

São Domingos Sávio

 

Domingos Sávio nasceu perto de Turim, em Itália, no ano de 1842; estudou na aldeia e mais tarde foi um dos primeiros a ser acolhido por Dom Bosco no seu Oratório. Estes centros de santificação dos jovens eram um lugar nos arredores de Turim onde assistiam os jovens como escola do primeiro grau; orientação profissional; trabalho e tudo proporcionando o crescimento espiritual e a salvação das almas.

São Domingos Sávio era um jovem comum, mas que interiorizou tão bem a espiritualidade salesiana no seu dia a dia que a sua alegria de menino nunca desapareceu, apenas foi purificada de todo e qualquer pecado. O Santo de hoje amava demais a Eucaristia e sua mãe, Nossa Senhora. Um dos lemas por ele vivido era: “Antes morrer do que pecar!!!”

Domingos Sávio interiormente amadureceu muito com a vida e sofrimentos que enfrentou em segredo, até contrair uma grave doença e com apenas 15 anos entrar para o Céu em 1857.

Texto: Evangelho Cotidiano.