A transmissão da Revelação divina

Como a Revelação de Deus chegou até nós? Eis o que nos ensina o Catecismo da Igreja Católica.

74. Deus «quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2, 4), quer dizer, de Cristo Jesus (37). Por isso, é preciso que Cristo seja anunciado a todos os povos e a todos os homens, e que, assim a Revelação chegue aos confins do mundo:

Deus dispôs amorosamente que permanecesse íntegro e fosse transmitido a todas as gerações tudo quanto tinha revelado para salvação de todos os povos (38).

I. A Tradição apostólica

75. «Cristo Senhor, em quem toda a revelação do Deus altíssimo se consuma, tendo cumprido e promulgado pessoalmente o Evangelho antes prometido pelos profetas, mandou aos Apóstolos que o pregassem a todos, como fonte de toda a verdade salutar e de toda a disciplina de costumes, comunicando-lhes assim os dons divinos» (39).

A PREGAÇÃO APOSTÓLICA …

76. A transmissão do Evangelho, segundo a ordem do Senhor, fez-se de duas maneiras:

– oralmente, «pelos Apóstolos, que, na sua pregação oral, exemplos e instituições, transmitiram aquilo que tinham recebido dos lábios, trato e obras de Cristo, e o que tinham aprendido por inspiração do Espírito Santo»;

– por escrito, «por aqueles apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, escreveram a mensagem da salvação» (40). Continue Lendo “A transmissão da Revelação divina”

O encontro de São Francisco de Assis com o Sultão

No fervor de sua caridade sentiu-se inspirado a imitar o triunfo glorioso dos mártires nos quais o fogo da caridade não se extinguia nem se quebrantava a coragem. Inflamado por esse perfeito amor que expulsa o temor, suspirava por se oferecer como hóstia viva a Deus imolada pela espada do martírio; dessa forma ele passaria a Cristo a morte que ele aceitaria por nós e levaria os homens ao amor de Deus. No sexto ano depois de sua conversão, ardendo de desejo de martírio, resolveu ir à Síria pregar a fé cristã e a penitência aos sarracenos e a outros infiéis. Mas o navio que o conduzia foi arrastado pelos ventos contrários para as costas da Eslavônia. Aí ficou algum tempo sem encontrar navio com destino ao Oriente. Entendeu que lhe era recusado o que desejava. E como alguns marinheiros se preparavam para ir à Ancona, pediu para embarcar por amor de Deus. Mas como não tivessem com que pagar, os marinheiros nem quiseram ouvi-lo e o homem de Deus, entregando-se inteiramente nas mãos de Deus, introduziu-se sub-repticiamente no navio com seu companheiro. Entretanto, um homem certamente enviado por Deus para socorrer o pobre Francisco chegou trazendo víveres, chamou um os marujos, homem temente a Deus, e lhe disse: “Guarda com todo cuidado estas provisões para os pobres Irmãos que estão escondidos no navio; tem a bondade de lhes entregar de minha parte quando tiverem necessidade”. Os ventos sopravam com tal violência que os dias passaram sem que fosse possível abicar em parte alguma; os marujos estavam no fim das provisões; sobravam apenas as esmolas graciosamente oferecidas pelo céu ao pobre Francisco. Eram muito modestas, mas o poder de Deus as multiplicou de tal forma e em tanta quantidade que, apesar do atraso ocasionado pela tempestade que continuava a castigar duramente, elas satisfizeram totalmente às necessidades de todos até Ancona. E os marujos, vendo afastado o perigo de morte de que os livrara o servo de Deus, deram graças ao Altíssimo onipotente, que sempre se mostra admirável e amável nos seus amigos e servos. E com muito acerto, pois haviam enfrentado de perto os tremendos perigos do mar e visto as admiráveis obras de Deus nas águas profundas.

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O jejum das Quatro Têmporas

Foi o Papa Calisto que instituiu o jejum das têmporas, que deve ser observado quatro vezes por ano, uma em cada estação, por várias razões.

Primeira delas, a diversidade das épocas, pois a primavera é quente e úmida, o verão quente e seco, o outono frio e seco, o inverno frio e úmido. Jejuamos na primavera para temperar em nós o humor nocivo que é a luxúria; no verão para castigar o calor prejudicial que é a avareza; no outono para temperar a secura do orgulho; no inverno para atenuar o frio da infidelidade e da malícia.

Segunda razão, jejuamos quatro vezes por ano, a primeira delas em março, na primeira semana da Quaresma, para mitigar em nós os vícios, já que não podemos destruí-los inteiramente, ou melhor, para germinar em nós as virtudes. O segundo jejum ocorre no verão, na semana de Pentecostes, quando veio o Espírito Santo para o qual devemos nos preparar fervorosamente. O terceiro jejum é observado em setembro, antes da festa de São Miguel, quando se faz a colheita das frutas e devemos então entregar a Deus os frutos das boas obras. O quarto jejum vem em dezembro, quando as ervas morrem e devemos morrer para o mundo.

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O Santíssimo Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo

Bula Transiturus de hoc mundo, do Papa Urbano IV, de 11 de agosto de 1264.

A Eucaristia como memorial de Cristo

Na instituição deste sacramento, ele disse aos Apóstolos: “Fazei isto em minha memória” (Lc 22,19), para que este excelso e venerável sacramento fosse para nós peculiar e insigne memorial do seu extraordinário amor com o qual nos amou. Admirável memorial, digo… , no qual se renovam os sinais e as maravilhas se apresentam transformadas, no qual se encontra todo deleite…, no qual conseguimos sim uma ajuda de vida e salvação. Este é o memorial … salvífico, no qual reconsideramos a grata memória da nossa redenção, no qual somo afastados do mal e revigorados no bem, e progredimos no crescimento das virtudes e das graças, no qual verdadeiramente progredimos pela presença corpórea do próprio Salvador.

De fato, as outras coisas de que fazemos memória, nós a abraçamos com o espírito e com a mente, mas não conseguimos com isto a sua real presença. Ao invés, nesta sacramental comemoração do Cristo, está presente conosco Jesus Cristo, ainda que sob outra forma, nas em <sua> própria substância. Pois quando estava para subir aos céus, disse aos Apóstolos e aos seguidores deles: “Eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28,20), confortando os mesmos com a benigna promessa de permanecer e estar com eles também em presença corpórea.

A Eucaristia como alimento da alma

… Superando toda plenitude de generosidade, excedendo toda medida de amor, ofereceu a si mesmo em alimento. Ó singular e maravilhosa generosidade, onde o doador vem como dom, e o que é doado é totalmente idêntico ao doador! …

Ele, portanto, se deu a si mesmo em alimento a nós, para que o homem que estava em ruínas por causa da morte, pelo alimento fosse reerguido para a vida… O degustar feriu e o degustar curou. Contempla como, de onde nasceu a ferida, saiu o remédio e, de onde entrou a morte, saiu a vida. Daquele degustar, de fato, foi dito: “No dia em que comeres, de morte morrerás” (Gn 2,17); deste, ao contrário, se lê: “Se alguém tiver comido deste pão, viverá eternamente” (Jo 6,52). …

Foi também preciosa liberalidade e conveniente operação que o Verbo eterno de Deus, que é alimento e refeição da criatura racional feito carne, se oferecesse generosamente em banquete à carne e ao corpo da criatura racional, isto é, ao ser humano. … Este pão é comido, mas na verdade não é consumido; é comido, mas não mudado, porque não é de modo algum transformado naquele que come, mas, se é recebido de modo digno, aquele que o recebe é a ele amoldado.

Texto: Bula Transiturus de hoc mundo, do Papa Urbano IV, de 11 de agosto de 1264; transcrito dos nn. 846 e 847 do Compêndio dos Símbolos, definições e declarações de fé e moral, o “Denzinger”, da 3ª edição das editoras Paulinas e Loyola.
Imagens: Adam and Eve, de Jan Gossaert; e Christus mit der Eucharistie, de Juan de Juanes.

O discernimento

Como é possível saber se algo vem do Espírito Santo ou se deriva do espírito do mundo e do espírito maligno? A única forma é o discernimento. Este não requer apenas uma boa capacidade de raciocinar e sentido comum, é também um dom que é preciso pedir. Se o pedirmos com confiança ao Espírito Santo e, ao mesmo tempo, nos esforçarmos por cultivá-lo com a oração, a reflexão, a leitura e o bom conselho, poderemos certamente crescer nesta capacidade espiritual.

O discernimento não é necessário apenas em momentos extraordinários, quando temos de resolver problemas graves ou quando se deve tomar uma decisão crucial; mas é um instrumento de luta, para seguir melhor o Senhor. É-nos sempre útil, para sermos capazes de reconhecer os tempos de Deus e a sua graça, para não desperdiçarmos as inspirações do Senhor, para não ignorarmos o seu convite a crescer. Frequentemente isto decide-se nas coisas pequenas, no que parece irrelevante, porque a magnanimidade mostra-se nas coisas simples e diárias*. Trata-se de não colocar limites rumo ao máximo, ao melhor e ao mais belo, mas ao mesmo tempo concentrar-se no pequeno, nos compromissos de hoje. Por isso, peço a todos os cristãos que não deixem de fazer cada dia, em diálogo com o Senhor que nos ama, um sincero exame de consciência. Ao mesmo tempo, o discernimento leva-nos a reconhecer os meios concretos que o Senhor predispõe, no seu misterioso plano de amor, para não ficarmos apenas pelas boas intenções.
É verdade que o discernimento espiritual não exclui as contribuições de sabedorias humanas, existenciais, psicológicas, sociológicas ou morais; mas transcende-as. Não bastam sequer as normas sábias da Igreja. Lembremo-nos sempre de que o discernimento é uma graça. Embora inclua a razão e a prudência, supera-as, porque trata-se de entrever o mistério daquele projeto, único e irrepetível, que Deus tem para cada um e que se realiza no meio dos mais variados contextos e limites. Não está em jogo apenas um bem-estar temporal, nem a satisfação de realizar algo de útil, nem mesmo o desejo de ter a consciência tranquila. Está em jogo o sentido da minha vida diante do Pai que me conhece e ama, aquele sentido verdadeiro para o qual posso orientar a minha existência e que ninguém conhece melhor do que Ele. Em suma, o discernimento leva à própria fonte da vida que não morre, isto é, conhecer o Pai, o único Deus verdadeiro, e a quem Ele enviou, Jesus Cristo (cf. Jo17, 3). Não requer capacidades especiais nem está reservado aos mais inteligentes e instruídos; o Pai compraz-Se em manifestar-Se aos humildes (cf. Mt 11, 25).

* No túmulo de Santo Inácio de Loyola, lê-se este sábio epitáfio: «Non coerceri a maximo, contineri tamen a minimo divinum est – é divino não se assustar com as coisas maiores e, simultaneamente, cuidar das menores».

Texto: Exortação Apostólica Gaudete et exsultate do Papa Francisco, sobre a chamada à santidade no mundo atual, §§ 166, 169 e 170.
Confira o documento na íntegra.