A conversão tardia de Blaise Pascal

Blaise Pascal foi um dos grandes estudiosos do século XVII, influenciando diversas áreas do conhecimento na época: filosofia, matemática, física e… teologia?

Blaise Pascal foi um dos grandes estudiosos do século XVII, influenciando diversas áreas do conhecimento na época: filosofia, matemática, física e… teologia? Na verdade, Pascal nunca foi muito religioso. Ficou órfão de mãe aos três anos de idade; aos vinte e oito perdeu seu pai. Sua influência religiosa era jansenista (heresia que, entre outras coisas, nega o livre arbítrio), mas depois de ver-se sozinho e com somente um terço da herança de seu pai (uma irmã foi para o convento, para o qual sua parte foi doada; sua irmã mais velha usou sua parte como dote), Pascal abandonou a fé e a prática religiosa.

Em 23 de novembro de 1654, por volta das 22:30, Pascal teve uma experiência mística com Jesus, cujos detalhes nunca foram esclarecidos, mas teria durado aproximadamente duas horas. Neste acontecimento, Deus teria tocado em seu coração endurecido de tal forma que ele pegou o papel e escreveu um ato de fé e contrição que ao final ele costurou por dentro de sua roupa, e o acompanharia até o fim de sua vida:

O Ano da Graça de 1654.

Segunda-feira, 23 de novembro, festa de São Clemente, papa e mártir, e outros na martirologia. Vigília de São Crisógono, mártir, e outros. Próximo das dez e trinta da noite até meia noite e meia.

Fogo.

Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó
Não dos filósofos e dos estudados.
Convicção. Convicção. Sentimento. Felicidade. Paz.
Deus de Jesus Cristo.
Meu Deus e seu Deus.
Seu Deus será meu Deus.
Esquecimento do mundo e de tudo, exceto de Deus.
Ele somente é encontrado pelos caminhos ensinados pelo Evangelho.
Esplendor da alma humana.
Pai justo, o mundo não O conheceu, mas eu O conheci.
Felicidade, felicidade, felicidade, lágrimas de felicidade.
O fugi dEle:
Eles me abandonaram, a fonte de água viva.
Meu Deus, ireis deixar-me?
Não deixe-me separar dEle para sempre.
Está é vida eterna, que eles O conheçam, o Deus Verdadeiro, e Aquele que Vós enviastes, Jesus Cristo.
Jesus Cristo.
Jesus Cristo.
Eu O deixei; fugi dEle, renunciei, crucifiquei.
Não me deixe nunca me separar dEle.
Só permanece nEle pelos ensinamentos do Evangelho:
Renúncia, total e doce.
Completa submissão a Jesus Cristo e ao meu confessor.
Eternamente em júbilo por um dia de exercício na terra.
Jamais esquecerei vossas palavras. Amen.

A partir deste dia, Pascal dedicou seus escritos somente a Teologia e Apologética. Após alguns anos, escreveu suas Cartas Provinciais. Estava já trabalhando em outro livro que seria chamado Defesa da Religião Cristã, porém ficou severamente doente e faleceu antes de terminá-lo. Seus escritos foram compilados e publicados postumamente como Pensamentos de Pascal sobre religião e outros assuntos, conhecido simplesmente como Pensamentos.

Há alguns pontos de vista controversos e de fato heréticos em Pensamentos, talvez por não ter passado por uma revisão do autor ou por seu afastamento da Igreja por tanto tempo, e por causa disso eu recomendo muito cuidado durante a leitura. Apesar disto, Pascal concebe o argumento contra o ateísmo que hoje é conhecido como Aposta de Pascal. Resumidamente, Pascal diz que perde-se muito mais não crendo em Deus e Ele de fato existindo, do que crendo nEle e Ele não existindo.

Publico aqui dois pontos de seu Pensamentos:

“Se eu visse um milagre”, dizem alguns, “eu me converteria.” Como que eles podem estar tão certos de que fariam algo cuja natureza eles desconhecem? Eles imaginam que esta conversão consiste na adoração a Deus como um comércio, e numa comunhão que eles próprios imaginam. A religião verdadeira consiste em aniquilar-se diante deste Ser Universal, que nós temos provocado tanto, e que poderia simplesmente nos destruir a qualquer instante; reconhecendo que não podemos fazer nada sem Ele, e que não merecemos nada dEle além de seu desgosto. Ela consiste em saber que há uma oposição intransponível entre Deus e nós, e que sem um mediador não há nenhuma comunhão com Ele. (n. 470)

Há uma alegria em estar num navio castigado por uma tempestade, quando tem-se a certeza de que não naufragará. As perseguições contra a Igreja são desta natureza. (n. 858)

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