O jejum das Quatro Têmporas

Foi o Papa Calisto que instituiu o jejum das têmporas, que deve ser observado quatro vezes por ano, uma em cada estação, por várias razões.

Primeira delas, a diversidade das épocas, pois a primavera é quente e úmida, o verão quente e seco, o outono frio e seco, o inverno frio e úmido. Jejuamos na primavera para temperar em nós o humor nocivo que é a luxúria; no verão para castigar o calor prejudicial que é a avareza; no outono para temperar a secura do orgulho; no inverno para atenuar o frio da infidelidade e da malícia.

Segunda razão, jejuamos quatro vezes por ano, a primeira delas em março, na primeira semana da Quaresma, para mitigar em nós os vícios, já que não podemos destruí-los inteiramente, ou melhor, para germinar em nós as virtudes. O segundo jejum ocorre no verão, na semana de Pentecostes, quando veio o Espírito Santo para o qual devemos nos preparar fervorosamente. O terceiro jejum é observado em setembro, antes da festa de São Miguel, quando se faz a colheita das frutas e devemos então entregar a Deus os frutos das boas obras. O quarto jejum vem em dezembro, quando as ervas morrem e devemos morrer para o mundo.

Terceira razão, imitar os judeus. Estes jejuavam quatro vezes por ano, antes da Páscoa, antes de Pentecostes, antes da Escenofegia, isto é, a festa dos Taberáculos, em setembro, e antes da Dedicação, ocorrida em dezembro.

Quarta razão, porque o homem é composto de quatro elementos quanto ao corpo e de três potências quanto à alma: a racional, a concupiscível e a irascível. Portanto, é a fim de moderá-los que jejuamos quatro vezes por ano, durante três dias, para associar o número quatro ao corpo e três à alma. Todas essas razões são dadas por mestre João Beleth.

Quinta razão, fornecida por João Damasceno, o sangue aumenta na primavera, a bílis no verão, a melancolia no outono e a fleuma no inverno. Consequentemente, jejua-se na primavera para debilitar o sangue da concupiscência e da louca alegria, pois o sanguíneo é libidinoso e alegre. No verão, para enfraquecer a bílis do arrebatamento e da falsidade, pois o bilioso é por natureza colérico e falso. No outono, para acalmar a melancolia da cupidez e da tristeza, pois o melancólico é por natureza invejoso e triste. No inverno, para diminuir a fleuma da estupidez e da preguiça, pois o fleumático é por natureza estúpido e preguiçoso.

Sexta razão, a primavera é comparada ao ar, o verão ao fogo, o outono à terra, o inverno à água. Jejuamos portanto na primavera para domar em nós o ar da elevação e do orgulho; no verão para apagar o fogo da cupidez e da avareza; no outono para vencer a terra da frieza espiritual e da tenebrosa ignorância; no inverno para destruir a água da leviandade e da inconstância.

Sétima razão, a primavera relaciona-se à infância, o verão à adolescência, o outono à maturidade ou idade viril, o inverno à velhice. Jejuamos então na primavera para conservar a inocência de crianças; no verão para consolidar a força, evitando a incontinência; no outono para recuperar a juventude através da constância e ratificar a maturidade através da justiça; no inverno para ficar velhos com prudência e honestidade e pagar as ofensas que fizemos ao Senhor nas outras idades.

Oitava razão, dada pelo mestre Guilherme de Auxerre. Jejuamos nos quatro tempos do ano para nos emendar das faltas cometidas durante as quatro estações. Esses jejuns são de três dias cada para pagar num dia os erros cometidos num mês. Jejua-se quarta-feira por ser o dia em que o Senhor foi traído por Judas; sexta-feira, por ser o dia de sua crucifixão; sábado, por ser o dia em que ficou no túmulo e no qual os apóstolos estavam tristes pela morte de seu Senhor.

Texto: capítulo completo O jejum das Quatro Têmporas do livro Legenda Aurea, do beato Jacopo de Varazze.
Imagem: Christ in the Wilderness, de Ivan Kramskoy.

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